Cresci em Estarreja e continuo a considerar esta terra a minha casa. Gosto de abrir a porta e ver mato, pinhais e caminhos de terra, sabendo que em meia hora a pé estou no centro e que posso ir à pesca quando me apetece. É uma terra pequena, onde as pessoas se conhecem, e boa parte da minha vida continua ligada às pessoas e às atividades daqui.

Desmontar coisas

Em miúdo, desmontava os carrinhos telecomandados, os computadores velhos e praticamente tudo o que me fosse parar às mãos. Aos dez anos, durante as férias de verão, decidi fazer o mesmo ao computador da minha mãe, o único que tínhamos em casa, enquanto ela estava a trabalhar. Depois de o desmontar por completo e limpar, tive de descobrir como o voltar a montar sem poder procurar um tutorial no YouTube: o único computador que podia usar estava agora às peças, e eu nunca tinha feito aquilo antes. Estava a ligar o último fio do painel frontal quando ela estacionou o carro.

Por essa altura, também comecei a encontrar razões para construir coisas. Adoro pássaros, tudo o que tenha bico e penas, e lembro-me bem do que senti quando o meu avô deixou a porta do viveiro aberta sem querer e a minha rolinha preferida fugiu. Ela acabou por voltar, mas eu não queria voltar a passar por aquele susto. Por volta dos onze anos, instalei um buzzer ligado a uma bateria, que tocava enquanto a porta estivesse aberta.

O meu avô teve bastante influência no meu interesse pela eletricidade, ao ponto de eu também querer ser eletricista. Mas a eletrónica era um hobby complicado para uma criança sem dinheiro: os componentes eram caros e encomendá-los pela Internet não era assim tão simples. Acabei por passar mais tempo na programação, onde podia experimentar e fazer os meus próprios programas mesmo que o computador fosse uma batata.

Hardware, software e um ferro de soldar

Fui estudar Engenharia de Computadores e Informática para a Universidade de Aveiro, onde terminei a licenciatura em 2024. Continuo por lá, agora no mestrado em Engenharia de Computadores e Telemática, e com o mesmo gosto por juntar código e eletrónica. Poder passar uma tarde a soldar e acabar com tudo a funcionar continua a ser das partes de que mais gosto.

Entre os projetos que fiz na universidade, a estação meteorológica e o gateway IoT com AES são dos meus preferidos precisamente porque me deram espaço para trabalhar tanto no hardware como no software, tal como o sistema de controlo de acessos Aditus. Às vezes, essa vontade de experimentar acaba por me dar mais trabalho do que o necessário: num dos sensores da estação meteorológica, numa experiência que não cheguei a publicar, usei um ATtiny para comunicar com o ESP32 por I²C, apesar de o ESP32 ter pinos livres de sobra. Queria experimentar construir o meu próprio periférico I²C e perceber como se fazia.

Quando alguma dessas experiências não funciona, vou separando os problemas e tratando de um de cada vez, até perceber onde está a falha. Ainda há muito que quero explorar, sobretudo na eletrónica analógica, no áudio sobre IP e na engenharia inversa de dispositivos embebidos.

Aveiro, investigação e Linux

Ainda durante a licenciatura, em 2023, comecei a trabalhar no Instituto de Telecomunicações com uma bolsa de iniciação à investigação. Até 2026, o trabalho levou-me do uso de IPFS em cenários 5G para edge computing ao Aveiro Tech City Living Lab (ATCLL), onde desenvolvi uma plataforma para consultar, em tempo real, os dados de LiDAR, radares e câmaras espalhados pela cidade. Mais tarde, alarguei-a à consulta de dados históricos, com velocidades médias em troços de estrada, congestionamento e estatísticas de estacionamento. Pelo meio havia muito código para escrever, documentação para ler e decisões para deixar documentadas.

Fora do trabalho de investigação, passei bastante tempo envolvido com Linux. Comecei com Ubuntu e nunca tive grande vontade de voltar ao Windows, tanto pelo design do GNOME como pela facilidade de automatizar coisas na linha de comandos. Como também tenho um homelab com servidores Linux, faz-me sentido conhecer bem esse ambiente. Uma das coisas que mais valorizo no código aberto é poder abrir o código de outra pessoa, tentar perceber como resolveu um problema e aprender com isso.

Na universidade, esse interesse deu-me também a oportunidade de conhecer pessoas através do GLUA, o Grupo de Linux da Universidade de Aveiro, de que fui coordenador. Dei workshops de iniciação ao Linux, escrevi guias de instalação e resolução de problemas e fiz um script para instalar o Quartus Prime Lite em Ubuntu e Fedora. O GLUA é uma das razões pelas quais guardo tanto carinho pela universidade, a par dos professores e seguranças que fui conhecendo e do próprio departamento, a que me afeiçoei.

Longe do computador

Em Estarreja, essa parte social da minha vida faz-se muito à volta do rancho folclórico, onde toco acordeão, e do grupo de carnaval, onde ajudo no que for preciso, desde trabalhos de mecânica aos trajes. Também faço licores e vou fazendo bastantes biscates: reparar computadores, fazer instalações elétricas, alugar e montar som para eventos de empresas, trabalhar ao balcão de um bar ou até construir paredes em OSB. É frequente os amigos e colegas virem ter comigo quando precisam de uma ideia para resolver alguma coisa.

A corrida acompanha-me desde pequeno, embora tenha ficado para segundo plano nos últimos anos. Continuo a gostar de sair para passear e, num fim de semana bem passado, há lugar para um jantar com amigos, um ensaio do rancho ou tempo com a minha namorada. Sou uma pessoa sociável e preciso de me sentir bem com quem está à minha volta, coisa que também procuro numa equipa de trabalho: um ambiente acolhedor, onde possa fazer perguntas à vontade, porque provavelmente vou ter bastantes.

Diz olá

Se quiseres conversar sobre um projeto, uma oportunidade de trabalho ou algo que estás a construir, escreve-me.

me@miguelovila.pt